O meu jeito certo de viajar

Eu não viajo em feriadões e também evito ao máximo a alta temporada.

Motivos médicos, sabe? Tenho alergia à muvuca. É hereditário e não tem cura, mas disseram que uma benzedeira de Santa Bárbara D’Oeste conseguiria dar um jeito. Fui até lá. Quando eu cheguei, tinha muita gente. Muvuca. Desisti.

Sempre que viajo, procuro explorar as atrações do lugar por conta própria. Para começar, dou preferência ao Airbnb. A gente fica mais à vontade e consegue se integrar melhor à vida do lugar. Hotel, só em último caso ou se for um belo resort. Aí faz sentido, pois o próprio hotel é uma das atrações principais.

Para explorar os arredores no meu ritmo, costumo alugar um carro. Normalmente compensa bastante. O Uber também é uma excelente opção, principalmente se o passeio incluir bons vinhos e você não encontrar nenhum trouxa voluntário entre os ocupantes do carro para ser o motorista da vez. A tal da “Lei Seca” está sendo aplicada com rigor em cada vez mais cidades e não vale a pena estragar uma viagem de férias por causa de um bafômetro.

Não sou fã de passeios guiados, aqueles com horário e roteiro fixos. Neles os turistas são tratados como gado, já reparou? Andam todos juntos seguindo o sujeito que leva a bandeirinha e obedecendo ordens. Comem no restaurante que o guia indicar, compram na lojinha onde ele entrar, fotografam as coisas que ele mostrar. Tem gente que prefere assim pela comodidade. Mas pra mim não serve. Eu não sou preguiçoso e sei usar a internet. Gosto de pesquisar por conta própria, planejar com antecedência e fazer somente o que me interessa.

Google + TripAdvisor + Waze + Carro = LIBERDADE

Quer uma dica para economizar com lembrancinhas de viagem? Simples. Não compre nada para ninguém. Canecas, camisetas, chaveiros, porta-retratos, quadros e plaquinhas não passam de bugigangas que gente brega adora colocar na estante ou pendurar pela casa. O problema é que gente brega normalmente não sabe que é brega. Então tenha responsabilidade e pare de trazer essas quinquilharias para esse povo. Caso lhe perguntem se trouxe lembranças, diga apenas “Sim. Trouxe fotos. Quer ver?” Isso vai afastá-los.

Vai para o exterior? Parabéns. Mas atenção! Parentes e amigos adoram pedir coisas do free shop. Os mais descarados pedem mais de um item. Os mais filhos-da-puta lhe entregam listinhas. A dica que eu dou é: não se estresse. Para todos aqueles que lhe pedirem algo, responda “Trago sim, claro!” e vá viajar tranquilo. Aproveite. Curta bastante. Na volta, passe reto pelo free shop. Nem olhe. Vá direto para casa tomar um banho e descansar. Quando o pessoal souber do seu retorno e começar a cobrar as encomendas, a dica que eu dou é: minta. Diga apenas “O produto estava em falta.” Se notar alguma indignação ou desconfiança, seja impiedoso e acrescente “Ei! Não tenho culpa de você estar sem sorte!” Siga sua vida e da próxima vez que for viajar para o exterior, não conte a esse cretino.

Agora vamos falar um pouco das fotos e vídeos da viagem.

Na boa, se você é amador, prefira fotos. A grande maioria dos vídeos ficam uma bosta: tremidos, escuros, cortados e com áudio horrível. Além disso, tem um segredo que eu preciso lhe contar: ninguém quer assistir seus vídeos. É isso mesmo. Aceite. Ver fotografias é uma coisa. A gente pode ir passando rapidamente. Às vezes até damos sorte e conseguimos avançar duas de uma vez. Mas com vídeo é diferente. Chega a ser constrangedor assistir vídeo amador bosta de viagem. Pior é quando o “cinegrafista” admite que o material deixou a desejar e faz comentários do tipo “Pena que o meu celular não filma bem.” Aí a gente pensa “O celular, né? Sei, sei.”

Modéstia às favas, eu mando muito bem nas minhas fotos de viagem, então tenho propriedade para dar algumas dicas:

  • Pense antes de fotografar. Faça de conta que você está usando aquelas câmeras antigas com um filme de 36 poses. Não saia fotografando como um retardado.
  • A vida não é feita só de selfie. Aponte a câmera para o outro lado para variar um pouco. Agora, se você tem um “pau de selfie”, saia já da internet e vá se tratar.
  • Tire algumas fotos que não contenham pessoas. Costumam ser as melhores.
  • Faça uma seleção, mande imprimir e coloque num álbum bacana. Foto boa merece estar no papel.

No mais, boa viagem.

Desfacebook

Ultimamente eu vinha refletindo muito sobre como contribuir para que as pessoas pudessem agir e se expressar de uma maneira mais autêntica, livre e verdadeira.

Foi então que eu tive uma ideia sensacional para um aplicativo revolucionário: o Desfacebook.

Funciona assim:

  1. Baixe o Desfacebook e cadastre-se gratuitamente.
  2. Forneça o máximo possível de informações: escolas onde estudou, cidades onde morou, onde fez faculdade, empresas para as quais trabalhou, clubes que frequenta, igreja onde congrega, etc.
  3. Permita que o Desfacebook tenha acesso a todos os contatos do seu celular (telefone e email).
  4. Deixe que o Desfacebook faça uma varredura em todas as redes sociais das quais você participa (Facebook, Twitter, Instagram, Snapchat, Google+, etc.)
  5. Depois dessa minuciosa coleta de dados realizada pelos algoritmos de inteligência artificial, todos os contatos encontrados serão automaticamente adicionados à sessão de “Amigos” do seu perfil no Desfacebook! Ou seja, você já ingressa na plataforma com centenas, talvez milhares de amigos. E então é que começa a diversão…

Sua meta como usuário do Desfacebook é eliminar pessoas da sua rede, ficando com apenas dez. Isso mesmo! Seu objetivo é chegar nos TOP 10 que merecem sua atenção plena e interesse genuíno.

Para ajudá-lo, o Desfacebook exibe o botão “Desfazer amizade”. Ao clicar nele, você apaga a pessoa da sua rede e dá um passo importante na direção da sua meta. O sistema também dispara um aviso automático à pessoa excluída, para que ela fique ciente da sua ação. Transparência e honestidade acima de tudo! Ah, e essa ação é irreversível. Uma vez excluída, uma pessoa não pode ser adicionada novamente. Bem “vida real” mesmo.

Mas você não precisa sair desfazendo amizades logo de cara. No começo, é aconselhável que você apenas leia o que as pessoas postam. Caso você goste do conteúdo, não precisa fazer nada. Olha que fácil. Porém, se o post não lhe agradar, o Desfacebook oferece o botão “Caguei”. Basta um clique para que o post seja definitivamente removido do seu feed e o autor devidamente notificado, obviamente. Transparência, lembra?

Alguns exemplos:

  • Check-in no McDonalds? Caguei.
  • Foto de asa de avião? Caguei.
  • Aniversário da cunhada do primo? Caguei.
  • Vídeo de gatinho? Caguei.
  • Foto de prato de comida? Caguei.
  • Enquete? Caguei.

Deu pra entender, né?

As pessoas com os posts menos cagados ganharão prêmios em dinheiro.

Ao atingir a meta dos TOP 10 amigos, você pode começar a visitá-los ou convidá-los para almoços de domingo em sua casa. Quem sabe até combinar uma viagem de férias juntos! O importante é compartilhar experiências, trocar afetos e desfrutar da vida ao lado de quem realmente importa. E o mais legal é que nessas horas vocês nem se lembrarão de postar nada no Desfacebook.

E então? Minha ideia tem futuro?

Método infalível para cancelar assinaturas e serviços por telefone

Você alguma vez já passou momentos intermináveis ao telefone tentando cancelar algo?

Em caso afirmativo, eu tenho uma dica muito útil que você poderá utilizar da próxima vez. Acredite, sempre haverá uma próxima vez…

Os atendentes das empresas de internet, telefonia, TV por assinatura, seguros, cartões de crédito e outros serviços são exaustivamente treinados em procedimentos de retenção. Ou seja, eles seguem à risca roteiros pré-estabelecidos sempre que algum cliente manifesta a intenção de cair fora. Existem até departamentos inteiros especializados nisso.

Até aí, tudo bem. Essas pessoas estão tentando fazer bem o trabalho pelo qual são pagas. O problema é que isso quase sempre leva à insistência, inconveniência e perda de tempo. Nem vamos falar de quando a ligação cai no meio da conversa e você precisa começar tudo de novo.

Pois bem. Chega disso. Existe um argumento simples e objetivo que vai facilitar sua vida de uma vez por todas. Estou falando da mentira. Você leu certo. Eu disse men-ti-ra. Mas não pode ser qualquer uma.

Existe uma mentira específica, tão poderosa que queima todas as pontes por onde passa. Você precisa estar 100% seguro de que deseja realmente cancelar o serviço ou assinatura antes de pronunciar as impactantes palavras que compõem essa mentira, pois ela fechará todas as portas e não haverá volta. Quando você conjurar o encantamento que estou prestes a lhe ensinar, o atendente cairá aos seus pés, derrotado, impotente e subjugado. Ele fará exatamente o que você ordenar. Use esse poder com sabedoria.

É chegado o momento de aprender a conjurar as palavras que têm o poder de libertá-lo. Quando o atendente lhe perguntar o motivo pelo qual deseja cancelar o serviço, responda com convicção: “Eu e minha família estamos nos mudando definitivamente para o exterior”.

Depois disso, a conversa fluirá para uma direção inevitável. Nem o script nem o cérebro do atendente estarão preparados para contra-argumentar.

Seja feliz. E não precisa me agradecer.

Telefone fixo

– Prontinho, Seu Alípio, aqui estão os seus documentos. Pode guardá-los. Agora que eu já preenchi os dados pessoais e o endereço, preciso só de um telefone fixo para completar o seu cadastro.

– Ah, sim. É nove, nove três oito meia…-

– Não, não. Esse é um número de celular, né?

– É.

– O banco precisa de um telefone fixo. Nem que seja só para recados.

– Certo. É nove, nove três oito meia…-

– Esse número não é fixo, Seu Alípio!

– É sim. Eu ganhei do meu filho quando fiz 70 anos. Nunca mudou. É fixo.

– Entendo. Mas é um número de celular.

– Isso. Celular fixo.

– Vamos por outro caminho… O Senhor tem telefone em casa?

– Tenho sim.

– Ótimo. Qual é o número?

– É nove, nove três oito meia…-

– Não, Seu Alípio. Esse é o seu celular! Eu perguntei o telefone da sua casa!

– É esse aqui mesmo, ó. Eu ando com ele e também uso em casa. Só o meu filho que liga. Normalmente, à noitinha. Ele também me ensinou a ligar pra ele. Eu vou aqui em “Contatos” e…-

– Tá. Me diz uma coisa. Na sua casa tem algum OUTRO telefone, com OUTRO número?

– Ah, entendi. Tem outro sim. Mas esse não sai de cima da mesinha da sala porque…-

– É esse mesmo, Seu Alípio! Esse que ninguém leva para lugar nenhum. Qual o número dele?

– É nove, nove sete três oito…-

– NÃO! Esse é outro celular, Seu Alípio!

– É.

– MAS O SENHOR FALOU… [longo suspiro]. O senhor falou que ele não saía da sala.

– Minha esposa não gosta de celular. Ele fica largado lá na mesinha da sala. Aliás, minha esposa não gosta de telefone nenhum. Dá o que ver pra ela atender quando alguém chama no aparelho grandão da cozinha e…-

– ESSE! Esse grandão!

– O que é que tem?

– O senhor sabe o número?

– Sei sim.

– Não me diga que começa com nove!

– Hehehe. Não, não.

– Tá. Qual é o número?

– Quarenta e oito.

– Hein?!?

– Quarenta e oito.

– Esse é o número do seu apartamento, Seu Alípio! Esse aparelho não é telefone. É INTERFONE, SEU ALÍPIO! IN-TER-FO-NE!

– É sim. Mas é fixo. Na parede.

Curtindo a natureza

Finalmente, férias.

Carlota vinha planejando essa viagem há meses. Cuidou de cada detalhe com muito capricho durante as horas vagas e finais de semana. Passagens, hospedagem, passeios, tudo providenciado.

Iria sozinha. O destino escolhido era um belo chalé incrustado nas montanhas do Parque Nacional de Itaboraquê.

A combinação única de mata virgem, altitude, clima e total isolamento garantiam a Itaboraquê o título de ar mais puro do mundo, disputado pelos mais exigentes amantes da natureza. Europeus, americanos e asiáticos desembolsavam pequenas fortunas por uma semana em um daqueles chalés. Com Carlota não foi diferente. Mas isso não importava. Deixar para trás a metrópole, o emprego estressante, o trânsito caótico, o barulho e a poluição para mergulhar naquele imenso paraíso verde valia qualquer esforço financeiro.

“Será uma experiência incrível! Eu vou respirar o ar mais puro do mundo!”, ela repetia ansiosa para si mesma enquanto fazia o check-in no aeroporto.

Na mala, só o essencial. Roupas leves, calçado para trilha, repelente de mosquitos e quatorze maços de Marlboro.

“Dois por dia. Deve dar.”