Lava-Rápido Tio Pim: desconto de 60% para carros quitados

Se eu fosse dono de um lava-rápido, aproveitaria para educar financeiramente os meus clientes. Colocaria uma placa enorme, logo na entrada do estabelecimento, com os dizeres:

Lavagem: R$ 100. Desconto de 60% para veículos quitados.

Genial, eu sei.

Seria um lava-rápido ostentação! Os clientes fariam questão de serem vistos entrando no meu estabelecimento. Creio que até cairia bem se houvesse uma pequena fila de espera na entrada. Aumentaria o tempo de exposição do cliente. Melhorariam as chances de passar algum conhecido ou colega de trabalho.

Se frases do tipo “Comprei o último modelo de iPhone” já causam impacto, imagine então algo como “Eu lavo meu carro no Tio Pim.” Puta que pariu!

Mas o fator ostentação é secundário. Como eu disse no início, o principal objetivo é a educação financeira.

Já posso até imaginar algumas conversas minhas com clientes indignados…

— Essa placa aí fora com o preço é brincadeira, né?

— Não. Veículo financiado paga cem reais. Veículo quitado paga quarenta.

— Mas isso é um absurdo!

— Absurdo é contrair uma dívida para comprar um carro.

— Mas a forma como as pessoas adquirem seus bens não é da sua conta.

— Pelo jeito o seu carro é financiado, né?

— E se for, qual o problema?

— Problema nenhum. A lavagem sai por cem reais.

— Você acha mesmo que alguém seria otário de pagar cem reais por uma lavagem de carro que custa quarenta?

— Acho.

— Por quê?

— Porque quem compra carro financiado não deve ligar pra dinheiro.

— Pois saiba que tem muita gente rica que compra carro financiado!

— Sim. São trouxas. A lavagem sai por cem reais pra eles também.

— Cara, a maioria das pessoas não consegue comprar carro se não for financiado. Eu, por exemplo, tenho um bom emprego e um salário legal, mas não sei guardar dinheiro…

— Sabe lavar carro?

— Hã? Sei, claro!

— Então vá pra casa e lave o seu. Se precisou emprestar dinheiro para comprar o carro, não deveria se atolar mais pagando alguém para lavar.

— Escute aqui, seu…-

— Olha, vou fazer um negócio bom pra você! Noventa reais EM DEZ VEZES NO CARTÃO! Parcelinha de nove reais.

— Opa! Agora eu vi vantagem! Pode lavar!

 

(Lava-rápidos Tio Pim: apaixonados por carro, como todo brasileiro)

Desfacebook

Ultimamente eu vinha refletindo muito sobre como contribuir para que as pessoas pudessem agir e se expressar de uma maneira mais autêntica, livre e verdadeira.

Foi então que eu tive uma ideia sensacional para um aplicativo revolucionário: o Desfacebook.

Funciona assim:

  1. Baixe o Desfacebook e cadastre-se gratuitamente.
  2. Forneça o máximo possível de informações: escolas onde estudou, cidades onde morou, onde fez faculdade, empresas para as quais trabalhou, clubes que frequenta, igreja onde congrega, etc.
  3. Permita que o Desfacebook tenha acesso a todos os contatos do seu celular (telefone e email).
  4. Deixe que o Desfacebook faça uma varredura em todas as redes sociais das quais você participa (Facebook, Twitter, Instagram, Snapchat, Google+, etc.)
  5. Depois dessa minuciosa coleta de dados realizada pelos algoritmos de inteligência artificial, todos os contatos encontrados serão automaticamente adicionados à sessão de “Amigos” do seu perfil no Desfacebook! Ou seja, você já ingressa na plataforma com centenas, talvez milhares de amigos. E então é que começa a diversão…

Sua meta como usuário do Desfacebook é eliminar pessoas da sua rede, ficando com apenas dez. Isso mesmo! Seu objetivo é chegar nos TOP 10 que merecem sua atenção plena e interesse genuíno.

Para ajudá-lo, o Desfacebook exibe o botão “Desfazer amizade”. Ao clicar nele, você apaga a pessoa da sua rede e dá um passo importante na direção da sua meta. O sistema também dispara um aviso automático à pessoa excluída, para que ela fique ciente da sua ação. Transparência e honestidade acima de tudo! Ah, e essa ação é irreversível. Uma vez excluída, uma pessoa não pode ser adicionada novamente. Bem “vida real” mesmo.

Mas você não precisa sair desfazendo amizades logo de cara. No começo, é aconselhável que você apenas leia o que as pessoas postam. Caso você goste do conteúdo, não precisa fazer nada. Olha que fácil. Porém, se o post não lhe agradar, o Desfacebook oferece o botão “Caguei”. Basta um clique para que o post seja definitivamente removido do seu feed e o autor devidamente notificado, obviamente. Transparência, lembra?

Alguns exemplos:

  • Check-in no McDonalds? Caguei.
  • Foto de asa de avião? Caguei.
  • Aniversário da cunhada do primo? Caguei.
  • Vídeo de gatinho? Caguei.
  • Foto de prato de comida? Caguei.
  • Enquete? Caguei.

Deu pra entender, né?

As pessoas com os posts menos cagados ganharão prêmios em dinheiro.

Ao atingir a meta dos TOP 10 amigos, você pode começar a visitá-los ou convidá-los para almoços de domingo em sua casa. Quem sabe até combinar uma viagem de férias juntos! O importante é compartilhar experiências, trocar afetos e desfrutar da vida ao lado de quem realmente importa. E o mais legal é que nessas horas vocês nem se lembrarão de postar nada no Desfacebook.

E então? Minha ideia tem futuro?

Telefone fixo

– Prontinho, Seu Alípio, aqui estão os seus documentos. Pode guardá-los. Agora que eu já preenchi os dados pessoais e o endereço, preciso só de um telefone fixo para completar o seu cadastro.

– Ah, sim. É nove, nove três oito meia…-

– Não, não. Esse é um número de celular, né?

– É.

– O banco precisa de um telefone fixo. Nem que seja só para recados.

– Certo. É nove, nove três oito meia…-

– Esse número não é fixo, Seu Alípio!

– É sim. Eu ganhei do meu filho quando fiz 70 anos. Nunca mudou. É fixo.

– Entendo. Mas é um número de celular.

– Isso. Celular fixo.

– Vamos por outro caminho… O Senhor tem telefone em casa?

– Tenho sim.

– Ótimo. Qual é o número?

– É nove, nove três oito meia…-

– Não, Seu Alípio. Esse é o seu celular! Eu perguntei o telefone da sua casa!

– É esse aqui mesmo, ó. Eu ando com ele e também uso em casa. Só o meu filho que liga. Normalmente, à noitinha. Ele também me ensinou a ligar pra ele. Eu vou aqui em “Contatos” e…-

– Tá. Me diz uma coisa. Na sua casa tem algum OUTRO telefone, com OUTRO número?

– Ah, entendi. Tem outro sim. Mas esse não sai de cima da mesinha da sala porque…-

– É esse mesmo, Seu Alípio! Esse que ninguém leva para lugar nenhum. Qual o número dele?

– É nove, nove sete três oito…-

– NÃO! Esse é outro celular, Seu Alípio!

– É.

– MAS O SENHOR FALOU… [longo suspiro]. O senhor falou que ele não saía da sala.

– Minha esposa não gosta de celular. Ele fica largado lá na mesinha da sala. Aliás, minha esposa não gosta de telefone nenhum. Dá o que ver pra ela atender quando alguém chama no aparelho grandão da cozinha e…-

– ESSE! Esse grandão!

– O que é que tem?

– O senhor sabe o número?

– Sei sim.

– Não me diga que começa com nove!

– Hehehe. Não, não.

– Tá. Qual é o número?

– Quarenta e oito.

– Hein?!?

– Quarenta e oito.

– Esse é o número do seu apartamento, Seu Alípio! Esse aparelho não é telefone. É INTERFONE, SEU ALÍPIO! IN-TER-FO-NE!

– É sim. Mas é fixo. Na parede.

Curtindo a natureza

Finalmente, férias.

Carlota vinha planejando essa viagem há meses. Cuidou de cada detalhe com muito capricho durante as horas vagas e finais de semana. Passagens, hospedagem, passeios, tudo providenciado.

Iria sozinha. O destino escolhido era um belo chalé incrustado nas montanhas do Parque Nacional de Itaboraquê.

A combinação única de mata virgem, altitude, clima e total isolamento garantiam a Itaboraquê o título de ar mais puro do mundo, disputado pelos mais exigentes amantes da natureza. Europeus, americanos e asiáticos desembolsavam pequenas fortunas por uma semana em um daqueles chalés. Com Carlota não foi diferente. Mas isso não importava. Deixar para trás a metrópole, o emprego estressante, o trânsito caótico, o barulho e a poluição para mergulhar naquele imenso paraíso verde valia qualquer esforço financeiro.

“Será uma experiência incrível! Eu vou respirar o ar mais puro do mundo!”, ela repetia ansiosa para si mesma enquanto fazia o check-in no aeroporto.

Na mala, só o essencial. Roupas leves, calçado para trilha, repelente de mosquitos e quatorze maços de Marlboro.

“Dois por dia. Deve dar.”

Tonho e o tempo

“Tempo é dinheiro”, diz o ditado.

Bobagem.

Dinheiro você sempre pode conseguir mais. Tempo, não. Dinheiro perdido você recupera e pronto. Tempo desperdiçado você lamenta e ponto.

Portanto, tempo não é dinheiro coisa nenhuma. Tempo é mais do que dinheiro. Tem gente que até entende isso, mas acaba se precipitando e caindo nas graças de um outro ditado, que diz: “Tempo é o seu bem mais precioso”.

Discordo.

Tempo é o seu segundo bem mais precioso. Existe algo que vale muito mais. Trata-se da sua atenção.

Atenção (substantivo feminino)

  1. Concentração da atividade mental sobre um objeto determinado.
  2. Ato ou efeito de se ocupar de algo ou alguém.
  3. Cuidado, zelo, dedicação.
  4. Disposição para ouvir o que alguém tem a dizer.

 

Agora tentaremos relacionar esses conceitos com a vida de um adulto comum. Para facilitar, vamos chamar nosso herói de Tonho.

Tonho tem 35 anos, é casado e tem dois filhos pequenos em idade escolar, coitado. Formado em administração de empresas, ele trabalha como analista financeiro numa multinacional alemã fabricante de mãos-francesas (!?!?).

De segunda à sexta, Tonho passa assim:

  • Dormindo: 6 horas
  • Dirigindo para o trabalho: 1 hora
  • Trabalhando: 10 horas
  • Dirigindo para casa: 1 hora
  • Tempo livre: 6 horas (distribuídas ao longo do dia, obviamente)

 

Algumas conclusões:

  • Segundo especialistas, Tonho dorme pouco.
  • Tonho mora longe do trabalho.
  • Tonho vende à empresa o equivalente a 66,7% do tempo que passa acordado.

 

Mas e quanto às 6 horas de tempo livre, os 33,3% mais importantes?

Quanto tempo será que Tonho gasta com coisas corriqueiras, como escovar os dentes, fazer a barba, tomar banho, vestir-se, botar o lixo pra fora, tomar café-da-manhã, almoçar, jantar? Eu chutaria umas 2 horas…

OK. Sobraram 4 horas livres.

Nessas 4 horas, Tonho é o mestre de seu destino e o capitão de sua alma. Invictus!

Mas não nos esqueçamos que Tonho é um adulto comum, um ser humano mediano. É apenas mais um seguindo com a multidão. Então, de segunda a sexta, a valiosa atenção de Tonho é disputada por:

  • Televisão
    • Noticiário inútil
    • Programa esportivo
    • Programa sensacionalista
    • Novela
    • Reality show
    • Futebol
    • Filme dublado
  • Celular
    • Facebook
      • Discutir política (coxinha vs mortadela)
      • Curtir fotos toscas de parentes
      • Ver amigos fazendo check-in até em banheiro químico
      • Criar polêmica nos comentários
      • Marcar pessoas em vídeos de gatinhos fofos
      • Escrever “hahahaha” ou “kkkkkkkkk” nos comentários
      • Esperar dezenas de curtidas no comentário acima
    • WhatsApp
      • Piadas de
        • português
        • corno
        • negão
        • bichinha
        • puta
        • Joãozinho
      • Áudios com o gemidão
      • Fotos com o negão da picona
      • Pornografia
    • Joguinhos
      • The Sims
      • Pokémon GO
      • Candy Crush
  • Internet
    • Youtube
      • Trechos de stand-up comedy
      • UFC
      • Porta dos Fundos
    • Buscas no Mercado Livre
      • Novo iPhone
      • Capinha do novo iPhone
      • Pneus meia-vida para o Golf modelo antigo
      • Som automotivo usado
      • Facas Ginsu
      • Meias Vivarina
    • Buscas no Google
      • IPVA Golf modelo antigo
      • Tabela FIPE Golf modelo antigo
      • O que muda com a reforma trabalhista
      • Como pedir aumento

 

Ah, já ia me esquecendo… Tem também a família, os amigos e a cerveja, que Tonho consegue encaixar entre um item e outro da lista.

 

[Voz de locutor das Casas Bahia]

Mas o melhor vem agora: como prêmio por repetir obedientemente sua rotina de segunda à sexta, Tonho ganha dois dias inteiros para fazer o que quiser com a vida que sobrou na semana. É isso mesmo! São quarenta e oito horas seguidas para poder dar atenção total ao que ele quiser! Aproveite o sábado e o domingo, Tonho!

 

Mas não nos esqueçamos que Tonho é um adulto comum, um ser humano mediano.

Lembra das quatro definições de atenção? Pois então. Onde será que Tonho concentra sua atividade mental? De que ele se ocupa? A quem ele oferece cuidados, zelo e dedicação? Quem ele está disposto a ouvir?

Para suas 48 horas de tempo livre, além de todas as opções disponíveis de segunda à sexta, Tony pode escolher alguns dos ingredientes da lista a seguir: dormir, beber, lavar o carro, ler jornal, ir ao mercado, comer, dormir mais, passear de carro, ir ao clube, beber mais, brincar um pouco com as crianças, visitar algum parente, comer mais, cochilar um pouquinho, assistir algo “educativo” na TV (Luciano Huck, Regina Casé, Ratinho, Faustão, Gugu, Silvio Santos), ir ao shopping, pegar um cineminha com a patroa e as crianças… Assuma a partir daqui por gentileza e complete a lista com itens que você acha que agradariam nosso herói.

 

[Volta a voz de locutor das Casas Bahia]

Pensou que era só isso, Tonho? Pois você não vai acreditar no que vem agora. Basta cumprir apenas 11 meses dessa rotina de trabalhar cinco dias em troca de dois e você terá direito a… Espere! Respire fundo… Você terá direito a TRINTA DIAS de tempo livre para fazer o que quiser com a vida que sobrou no ano! Aproveite as férias, Tonho!

 

Mas não custa lembrar que Tonho é um adulto comum, um ser humano mediano.

Considerando as noites e finais de semana de Tonho ao longo de 11 meses, como você acha que serão suas férias? Talvez, para fugir um pouco da rotina, a família saia de viagem, se hospede em um hotel bacana, conheça lugares novos, faça alguns passeios, tire muitas fotos. Talvez… Aliás, tomara!

Mas mesmo que isso aconteça, o tempo e a atenção de Tonho continuarão sendo drenados. Ele não percebe, mas ali mesmo, naquele hotel bacana, Tonho será acorrentado novamente ao roteiro medíocre escrito para pessoas como ele. As correntes são duas. Grossas. Pesadas.

Lá vai o Tonho de férias. Em uma mão, o controle da TV. Na outra, a senha do Wi-Fi.