Não pode dar bobeira!

Numa bela manhã ensolarada em uma praia qualquer, eu me acomodei confortavelmente sob um guarda-sol e retomei a leitura do meu Kindle.

Minutos depois, senti cheiro de fumaça de cigarro. Vinha de um quiosque poucos metros a frente onde estava um jovem casal. Os dois fumavam.

Um cigarro. Outro cigarro. E outro. E mais outro.

Até aí, tudo bem. Eu não me incomodo com isso. Mas a coisa ficou interessante mesmo quando a mocinha tirou da bolsa de praia um protetor solar e passou no corpo todo, demoradamente. Logo após foi a vez do rapaz. Por fim, um aplicou o protetor nas costas do outro. Pareciam satisfeitos.

Guardando o frasco na bolsa, ela diz: “Não pode dar bobeira pro câncer de pele.”

Outro cigarro. E outro. E mais outro…

A arte de não fazer nada

O velho crocodilo flutuava tranquilamente perto da margem do rio quando um jovem crocodilo nadou para perto dele.

— Todos dizem que você é o caçador mais feroz desses rios. Por favor, me mostre sua técnica.

Despertado do seu sono da tarde, o velho crocodilo olhou o jovem por um breve instante e, sem dizer nada, voltou a adormecer.

Isso frustou o rapazinho. Sentindo-se desrespeitado, ele nadou furiosamente rio acima para perseguir alguns bagres. “Vou mostrar a ele”, pensou consigo mesmo.

Mais tarde, o jovem voltou para perto do velho crocodilo, que ainda estava cochilando.

— Eu peguei DOIS bagres bem carnudos hoje. O que você pegou? Nada? Talvez não seja assim tão feroz como dizem…

Mais uma vez, o velho olhou para o jovem. De novo, não disse nada. Apenas fechou os olhos e continuou flutuando na água.

Zangado por não conseguir uma resposta do velho crocodilo, o jovem subiu o rio mais uma vez para ver o que mais conseguiria caçar.

Depois de se debater por algumas horas, finalmente conseguiu capturar uma pequena garça. Segurou firmemente o pássaro com as mandíbulas e nadou de volta para mostrar ao velho quem era o verdadeiro caçador.

Ao contornar a curva do rio, viu que o velho continuava flutuando no mesmo lugar, perto da margem. Mas algo havia mudado. Um grande gnu estava bebendo água a apenas alguns centímetros da cabeça do crocodilo.

Em um movimento rápido como um raio, o velho crocodilo se lançou para fora da água, cravou as mandíbulas no pescoço do gnu e o puxou para o rio.

Impressionado, o jovem foi se aproximando. A pequena garça pendia de sua boca. Observou o velho crocodilo desfrutando da sua refeição de quase 300 quilos e perguntou:

— Por favor… Diga-me… Como… Como você fez isso?!?

Entre os bocados de gnu, o velho finalmente respondeu:

— Eu não fiz nada.

Lava-Rápido Tio Pim: desconto de 60% para carros quitados

Se eu fosse dono de um lava-rápido, aproveitaria para educar financeiramente os meus clientes. Colocaria uma placa enorme, logo na entrada do estabelecimento, com os dizeres:

Lavagem: R$ 100. Desconto de 60% para veículos quitados.

Genial, eu sei.

Seria um lava-rápido ostentação! Os clientes fariam questão de serem vistos entrando no meu estabelecimento. Creio que até cairia bem se houvesse uma pequena fila de espera na entrada. Aumentaria o tempo de exposição do cliente. Melhorariam as chances de passar algum conhecido ou colega de trabalho.

Se frases do tipo “Comprei o último modelo de iPhone” já causam impacto, imagine então algo como “Eu lavo meu carro no Tio Pim.” Puta que pariu!

Mas o fator ostentação é secundário. Como eu disse no início, o principal objetivo é a educação financeira.

Já posso até imaginar algumas conversas minhas com clientes indignados…

— Essa placa aí fora com o preço é brincadeira, né?

— Não. Veículo financiado paga cem reais. Veículo quitado paga quarenta.

— Mas isso é um absurdo!

— Absurdo é contrair uma dívida para comprar um carro.

— Mas a forma como as pessoas adquirem seus bens não é da sua conta.

— Pelo jeito o seu carro é financiado, né?

— E se for, qual o problema?

— Problema nenhum. A lavagem sai por cem reais.

— Você acha mesmo que alguém seria otário de pagar cem reais por uma lavagem de carro que custa quarenta?

— Acho.

— Por quê?

— Porque quem compra carro financiado não deve ligar pra dinheiro.

— Pois saiba que tem muita gente rica que compra carro financiado!

— Sim. São trouxas. A lavagem sai por cem reais pra eles também.

— Cara, a maioria das pessoas não consegue comprar carro se não for financiado. Eu, por exemplo, tenho um bom emprego e um salário legal, mas não sei guardar dinheiro…

— Sabe lavar carro?

— Hã? Sei, claro!

— Então vá pra casa e lave o seu. Se precisou emprestar dinheiro para comprar o carro, não deveria se atolar mais pagando alguém para lavar.

— Escute aqui, seu…-

— Olha, vou fazer um negócio bom pra você! Noventa reais EM DEZ VEZES NO CARTÃO! Parcelinha de nove reais.

— Opa! Agora eu vi vantagem! Pode lavar!

 

(Lava-rápidos Tio Pim: apaixonados por carro, como todo brasileiro)

Desfacebook

Ultimamente eu vinha refletindo muito sobre como contribuir para que as pessoas pudessem agir e se expressar de uma maneira mais autêntica, livre e verdadeira.

Foi então que eu tive uma ideia sensacional para um aplicativo revolucionário: o Desfacebook.

Funciona assim:

  1. Baixe o Desfacebook e cadastre-se gratuitamente.
  2. Forneça o máximo possível de informações: escolas onde estudou, cidades onde morou, onde fez faculdade, empresas para as quais trabalhou, clubes que frequenta, igreja onde congrega, etc.
  3. Permita que o Desfacebook tenha acesso a todos os contatos do seu celular (telefone e email).
  4. Deixe que o Desfacebook faça uma varredura em todas as redes sociais das quais você participa (Facebook, Twitter, Instagram, Snapchat, Google+, etc.)
  5. Depois dessa minuciosa coleta de dados realizada pelos algoritmos de inteligência artificial, todos os contatos encontrados serão automaticamente adicionados à sessão de “Amigos” do seu perfil no Desfacebook! Ou seja, você já ingressa na plataforma com centenas, talvez milhares de amigos. E então é que começa a diversão…

Sua meta como usuário do Desfacebook é eliminar pessoas da sua rede, ficando com apenas dez. Isso mesmo! Seu objetivo é chegar nos TOP 10 que merecem sua atenção plena e interesse genuíno.

Para ajudá-lo, o Desfacebook exibe o botão “Desfazer amizade”. Ao clicar nele, você apaga a pessoa da sua rede e dá um passo importante na direção da sua meta. O sistema também dispara um aviso automático à pessoa excluída, para que ela fique ciente da sua ação. Transparência e honestidade acima de tudo! Ah, e essa ação é irreversível. Uma vez excluída, uma pessoa não pode ser adicionada novamente. Bem “vida real” mesmo.

Mas você não precisa sair desfazendo amizades logo de cara. No começo, é aconselhável que você apenas leia o que as pessoas postam. Caso você goste do conteúdo, não precisa fazer nada. Olha que fácil. Porém, se o post não lhe agradar, o Desfacebook oferece o botão “Caguei”. Basta um clique para que o post seja definitivamente removido do seu feed e o autor devidamente notificado, obviamente. Transparência, lembra?

Alguns exemplos:

  • Check-in no McDonalds? Caguei.
  • Foto de asa de avião? Caguei.
  • Aniversário da cunhada do primo? Caguei.
  • Vídeo de gatinho? Caguei.
  • Foto de prato de comida? Caguei.
  • Enquete? Caguei.

Deu pra entender, né?

As pessoas com os posts menos cagados ganharão prêmios em dinheiro.

Ao atingir a meta dos TOP 10 amigos, você pode começar a visitá-los ou convidá-los para almoços de domingo em sua casa. Quem sabe até combinar uma viagem de férias juntos! O importante é compartilhar experiências, trocar afetos e desfrutar da vida ao lado de quem realmente importa. E o mais legal é que nessas horas vocês nem se lembrarão de postar nada no Desfacebook.

E então? Minha ideia tem futuro?