Mais louco que o Batman

Manhã de sábado. Minha esposa pediu que eu deixasse o carro dela no lava-rápido. O local fica a duas quadras de casa, então voltei caminhando.

Eu já estava em frente ao meu condomínio quando vi, do outro lado da rua, um casal de cachorros inseparavelmente conectados em pleno ato de procriação. Na direção deles, andando rápido e xingando, vinha uma senhora conduzindo outros três cachorros, todos na coleira. Na mão direita ela segurava uma vara de madeira. “Acariciar os cachorros é que ela não pretente”, foi minha brilhante dedução. Então parei para olhar.

– Agora eu vou te matar! – e pow!, desceu a lenha no lombo da cachorrinha, que gritou.

Todo mundo sabe o que acontece quando os cachorros transam. Na tentativa de separar, tem gente que joga água, taca pedra, dá chinelada. Aquela simpática velhinha escolheu sentar o porrete.

A cachorrinha estava de coleira e guia. De certo tinha escapado da dona durante o passeio matinal. Mal virou a esquina e já foi dando para o primeiro vira-latas que encontrou. Aí a casa caiu.

Veio a segunda paulada, seguida de outro grito da cachorra e um palavrão da velha. Nessa hora a gente percebe que a coisa não vai parar por aí. “O que Buda faria?”, pensei numa fração de segundo.

– SENHORA! – meu grito saiu alto pra caralho. Ela parou, segurando a vara no alto, e olhou pra mim. – Se bater de novo na cachorra, eu vou atravessar a rua e quebrar essa vara na sua cara! – falei com amor.

Funcionou. Ela baixou a mão e respondeu berrando:

– É MINHA cachorra! Ela fugiu de mim lá atrás. E agora olha o que ela fez. Quando a gente chegar em casa ela vai ver o que é bom. Eu vou matar essa filha-da-puta!

– Vai matar coisa nenhuma! Vou ficar de olho. Se alguma coisa acontecer com a cachorra, eu denuncio a senhora.

– Fique você com ela. Pega pra cuidar – falou e começou a se afastar, puxando a guia dos outros cachorros. – Ou então ela que fique na rua.

– Pelo que eu acabei de ver, ela vai ficar melhor na rua do que com a senhora.

Nisso a velha resolveu ir embora de vez. Não falou mais nada. Foi andando sem olhar pra trás. Dobrou a esquina e sumiu. “Agora fodeu”, pensei enquanto olhava para o casal sem-vergonha. Ainda presos um no outro.

Caminhei até o portão do meu condomínio, a uns cinquenta metros, e esperei. E esperei. E esperei. A velha reapareceu na esquina. Quando me viu, parou.

Mais alguns minutos se passaram até que a transa acabou. A cachorrinha foi correndo em direção à dona e se aproximou abanando o rabo, como se nada tivesse acontecido. A mulher apanhou a guia, me deu uma última olhada, virou-se e sumiu de novo na esquina.

Nessa hora a gente percebe que a coisa não deveria parar por aí. “O que Bruce Wayne faria?”, considerei.

Corri pra casa. Entrei apressado e apanhei a chave do meu carro. Minha esposa estranhou e quis saber pra onde eu estava indo.
– Vou me certificar de uma coisa – respondi já dando a partida no Batmóvel. – Na volta eu te explico!

Eu tinha de terminar o que comecei. Segui pela rua e virei a esquina por onde a mulher tinha sumido. Como eu suspeitava, ela não tinha ido muito longe. Eu a avistei dois quarteirões adiante. Então fui dirigindo devagar, chegando até a parar em alguns momentos para manter uma certa distância. Quando ela dobrava uma esquina, eu esperava um pouco e avançava. O celular estava no meu colo, com a câmera ligada no modo vídeo. Se a velha aprontasse de novo, eu teria provas.

Não demorou muito para que a mulher chegasse em casa. Ela abriu um portão de grade e os cães entraram correndo, subindo a rampa da garagem. “É agora! O que o Batman faria?”, ponderei.

Acelerei o Batmóvel e realizei uma chegada triunfal em frente ao portão da velha senhora. Infelizmente, não teve aquele som das freadas que a gente vê nos filmes – maldito freio ABS – mas o barulho do motor foi suficiente pra chamar a atenção dela. Baixei o vidro e ela me reconheceu de imediato. Ficou congelada, me olhando com espanto. Falei pausadamente, numa voz que, pelo menos na minha cabeça, lembrava o Morgan Freeman:

– Agora eu sei onde a senhora mora. Vou ficar de olho. Se bater de novo num cachorro, eu volto aqui com a polícia.

Não houve resposta. A velha sequer se mexeu. Subi o vidro e acelerei.

E foi assim que a paz e a justiça voltaram a reinar no Jardim Ouro Verde. Já de volta à Batcaverna, contei tudo pra minha esposa. Segundo ela, a única diferença entre mim e o Batman é a grana.